09 dez

Conto: João Preguiça por Lindolfo Gomes

João Preguiça

por Lindolfo Gomes

Quando o pai de João Preguiça morreu, recomendou aos outros filhos que não abandonassem seu irmão, que era um pobre parvo. Como eles estavam vendo, passava a vida deitado numa rede sem querer trabalhar.

Os moços, cumprindo o desejo do pai, levavam todos os dias a comida à rede de João Preguiça que não a ingeria sem que qualquer deles lha desse pela colher. E assim acontecia quanto ao mais.

Lá um dia, João Preguiça amanheceu morto na rede e os irmãos trataram de convidar os vizinhos, colocado o corpo num banguê, a ir sepultá-lo no cemitério do arraial. Em caminho, porém, sentiram que o banguê dera um estremeção. todos correram a acudir e viram e viram que João Preguiça estava ainda vivo.

Um dos irmãos disse-lhe.
— Isso é fraqueza João. Acaso você quererá voltar para casa e aceitar um bom prato de arroz?
O João Preguiça, com uma vozinha enfraquecida, respondeu:
— Quero sim . . . mas é com casca ou sem casca?
O outro advertiu-lhe:
— Com casca, João, com casca . . .
— Então, nesse caso, mano, não quero não.
E dirigindo-se aos carregadores do banguê, disse-lhes:
— Toca pro cemitério!
E esticou novamente no banguê.

FONTE: Contos Populares Brasileiros, Edições Melhoramentos, 3.ª edição, São Paulo 1965, p. 27.

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